D. Anacleto alerta para o perigo da "contradição entre o que se prega e o que se faz”

Somos Igreja_que_EvangelizaNa sua Carta Pastoral «Somos Igreja que Evangeliza», apresentada este sábado, o Bispo de Viana do Castelo afirma que esta é uma das principais causas do fracasso da evangelização no mundo presente.

Texto: Padre Renato Oliveira, publicado no semanário “Minho Digital” de 28 de Setembro de 2018

D. Anacleto Oliveira, Bispo Diocesano de Viana do Castelo, apresentou, no passado sábado, durante a Abertura do Ano Pastoral 2018/19, a sua Carta Pastoral «Somos Igreja que evangeliza», na qual os diocesanos podem encontrar as grandes linhas orientadoras deste Ano Pastoral, o segundo de um Projeto Pastoral Trienal destinado a assinalar os quarenta anos da fundação da Diocese, criada a 03 de novembro de 1977, pelo Beato Papa Paulo VI. Depois de, no primeiro ano (2017/18), a Diocese se ter centrado na gratidão, este ano (2018/19) deter-se-á sobre a evangelização, ao passo que no próximo e último ano (2019/20) se debruçará sobre o acolhimento.

A Carta Pastoral divide-se em cinco partes: «Da gratidão à evangelização» (I); «Conteúdo do Evangelho» (II); «Mediadores do Evangelho» (III); «Destinatários do Evangelho» (IV); «Da evangelização à gratidão» (V).

Na primeira parte, o Bispo Diocesano começa por agradecer a Deus o esforço e o empenho de tantos diocesanos nas diversas atividades e celebrações litúrgicas organizadas durante o Ano Jubilar comemorativo dos quarenta anos da criação da Diocese: «Quanta generosidade e criatividade foram reveladas! Quanto empenho e espírito de serviço! Quanto esforço e sacrifício, em tempo e bens materiais! Razões acrescidas para exclamarmos: Graças a Deus!» (n. 2).

D. Anacleto pede, de seguida, que a gratidão seja acompanhada de ações concretas, aludindo à oração composta para este Ano Jubilar: «“Pedimos-te pela renovação da nossa Diocese, para que, fiel ao sopro do Espírito, seja sal da terra e luz do mundo e faça suas as tristezas e as angústias, as alegrias e as esperanças dos homens e das mulheres de hoje”. “Sal e luz”, sobretudo pela evangelização; abertura à vida “dos homens e das mulheres de hoje”, primeiramente pelo seu acolhimento» (n. 3).

O Bispo explica, seguidamente, que a Igreja tem de ser, por razões estruturais, isto é, pela sua própria natureza (Cf. n. 3), evangelizadora e acolhedora. Acrescenta, contudo, que a urgência da evangelização e do acolhimento se deve, hoje, a alguns «sinais de alarme sobre a vitalidade da Diocese» (Cf. n. 4). Entre estes, destaca a diminuição da prática sacramental, bem como a redução da prática da catequese, da participação em ações formativas e mesmo em ações sócio-caritativas (Cf. n. 4). Estas realidades são lidas, de seguida, tendo em conta as mudanças profundas que a nossa sociedade enfrenta (Cf. n. 5) e que levam, entre muitas outras coisas, a que o catolicismo tenha «muito mais concorrência» (n. 6), não apenas de outras religiões institucionalizadas mas sobretudo das que hoje criam “novos deuses”.

Perante isto, o Bispo reconhece «a urgente necessidade de evangelização» (n. 7), a qual pressupõe, em primeiro lugar, a capacidade de olhar para estes sinais menos positivos como «oportunidades para a evangelização» (Cf. ns. 8-11). É este o convite feito por D. Anacleto, tomando como exemplo São Teotónio, Padroeiro Secundário da Diocese e figura inspiradora deste Ano Jubilar; procurando estar em sintonia com o Ano Missionário, que se iniciará em outubro próximo numa decisão da CEP tendo em vista apoiar o Mês Missionário Extraordinário proposto pelo Papa Francisco para outubro de 2019; e tendo presentes as principais linhas do Evangelista São Lucas, que nos deixou o seu Evangelho (que será escutado na maior parte das celebrações deste Ano), bem como o Livro dos Atos dos Apóstolos. S. Lucas, recorda D. Anacleto, é o evangelista «mais missionário ou evangelizador» (Cf. n. 14), isto porque os seus dois escritos se relacionam entre si numa perspetiva em que se incluem todos os elementos da evangelização, a saber: o conteúdo, os mediadores, os destinatários (Cf. n. 14).

Estes três temas dão origem aos três capítulos seguintes que constituem o núcleo da Carta Pastoral

No que se refere ao «Conteúdo do Evangelho» (II), D. Anacleto, partindo de Lc 24, 36-53, recorda que este centra-se na morte e ressurreição de Cristo, na qual Ele dá, de forma plena, a sua vida por cada ser humano: a mesma vida que deu ao longo do seu ministério, não apenas através das suas palavras, mas também dos seus pés e das suas mãos: «pés de quem sai ao serviço do Evangelho» (Cf. n. 17) e «mãos de quem faz o bem»(Cf. ns. 20-21), sempre «movido pela compaixão de Deus» (Cf. ns. 22-24) que o leva a agir permanentemente «como o que serve» (Cf. ns.25-28), até ao ponto de morrer numa Cruz.

Relativamente aos «Mediadores do Evangelho» (III), o Bispo Diocesano recorda, em primeiro lugar, que a sua ação deve partir sempre do «encontro com Jesus Cristo» (Cf. ns 30-32) e requer um testemunho de vida condicente com aquilo que se proclama (Cf. n. 34). D. Anacleto diz mesmo que «talvez, uma das razões principais da falta de evangelização ou do seu fracasso na Igreja de hoje, incluindo a nossa Diocese, seja a contradição entre o que se prega e o que se faz, ou entre o que se diz e o modo como é dito» (n. 36).

Tendo presentes os três sectores da vida da Igreja (a celebração, a comunhão e a formação), o Bispo Diocesano analisa de seguida, de forma breve, o modo como funcionam na Diocese de Viana na perspetiva da evangelização. No que se refere às atividades formativas, D. Anacleto alerta para o declínio na sua participação, quer por parte de sacerdotes, quer de leigos e aponta pistas para que esta tendência se possa inverter (Cf. ns. 40-43). Ao deter-se sobre as atividades celebrativas, o Bispo, destacando a centralidade da Eucaristia, faz algumas recomendações para que esta possa ser melhor vivida pelos leitores, cantores e instrumentalistas, acólitos, membros da assembleia e ministros (Cf. ns 44-48). No que respeita à dimensão caritativa, é destacada a importância da partilha de bens enquanto expressão da comunhão entre os cristãos. Aos sacerdotes em concreto, D. Anacleto exorta a evitar o “escândalo” na relação com o dinheiro, sobretudo quando este provém da Eucaristia (Cf. ns. 49-54).

Detendo-se sobre os «Destinatários do Evangelho» (IV), o Prelado destaca que a boa-nova da Salvação se destina «a todos os homens e ao homem todo» (Cf. n. 55). Alerta ainda para a necessidade do «anúncio do Evangelho (…) adaptar-se à situação de cada destinatário» (n. 57), pelo que se exige uma «evangelização pessoa a pessoa» (n. 59). Neste sentido, o Bispo Diocesano alerta para a necessidade de examinar algumas atitudes no que diz respeito a atividades formativas (nomeadamente a catequese), atividades celebrativas (especialmente as celebrações dos Sacramentos e a respetiva preparação), e atividades caritativas (designadamente na relação com os mais carenciados de vida) (Cf. ns. 60 a 72).

No último capítulo, «Da evangelização à gratidão» (V), em jeito de conclusão, D. Anacleto fala da importância da oração: «Sendo esta (a evangelização), acima de tudo, um testemunho vivo da fé no Deus a quem Jesus se entregou pela morte e que o ressuscitou para a nossa vida, não pode haver evangelização sem a persistente oração da fé neste Deus. Não será isso que está a faltar a tantos cristãos da nossa Diocese, inclusive a sacerdotes?» (n. 73). D. Anacleto pede, por isso, uma oração de contemplação, de intercessão e de gratidão (Cf. ns. 73 a 76) e termina o seu documento precisamente com a oração composta para a celebração dos quarenta anos da Diocese.

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