Os gritos que saem da Amazónia

sinodo amazonicoVem aí o Sínodo para a Amazónia (06 a 27 de Outubro de 2019). Brasil, Bolívia, Peru, Venezuela, Equador, Colômbia, Paraguai, Guianas e Suriname são os países que fazem parte deste pulmão do mundo’ que, desde há muito, se tornou também "insónia" *, como canta Roberto Carlos.

Um caminho foi já percorrido nestes tempos que foram e são de preparação para um evento que se pretende profético. O Instrumento de Trabalho foi publicado a 17 de Junho e traz algumas novidades. A principal prende-se com a proposta de que a Igreja aceite a ordenação sacerdotal de pessoas casadas, que sejam idóneas, respeitadas e reconhecidas pela comunidade. O objetivo é permitir que todas as Igrejas e todos os cristãos vivam da Eucaristia. Também se pede mais vez e voz para as mulheres que devem cumprir missões de liderança nas comunidades.

A primeira parte deste Instrumento de Trabalho descreve a situação atual dos povos amazónicos. Olhemos para a grandeza e beleza da Amazónia: ali vivem povos indígenas que cuidam da terra, da água e da floresta como mais ninguém o fez até hoje, tendo uma sabedoria ancestral a partilhar com o mundo nesta lógica de uma ecologia integral. Ali estão 40% das áreas florestais da terra. E é um enorme depósito de água.

Mas, esta terra tornou-se lugar de dor e violência. São muitos os mártires na Amazónia: só no Brasil, entre 2003 e 2017, foram assassinados 1119 indígenas na defesa dos seus territórios! Os povos são marginalizados e ameaçados pelos interesses económicos e políticos de quem quer a Amazónia só para fazer dinheiro. Muitos povos ribeirinhos fogem para as periferias das cidades onde já vivem de 70 a 80% das pessoas. A violência, o caos e a corrupção parecem ter tomado conta destas terras e destas gentes que caem nas redes das máfias, do narcotráfico e do tráfico de pessoas. Os interesses económicos ligados a empresas extractivistas e à floresta estão a destruir um ecossistema com consequências desastrosas para o planeta onde vivemos, a nossa casa comum. As alterações climáticas estão aí para dar razão aos povos indígenas.

A Igreja católica desde há séculos que partilha a sorte e a má sorte destes povos e quer continuar a amplificar os seus gritos. Tenta defender os seus direitos e as suas culturais ancestrais. Os missionários deram e dão a vida nestas terras. Mas a Igreja precisa de um rosto mais amazónico e, por isso, torna-se urgente promover vocações locais de homens e mulheres que respondam aos desafios da pastoral destes povos.

E há um pedido feito às Congregações Religiosas e Missionárias: é preciso promover uma vida consagrada mais profética com Consagradas e Consagrados, de diferentes Congregações, que aceitem formar comunidades lá onde mais ninguém quer ir e estar com o povo mais abandonado.

A procissão ainda vai no adro... diríamos. Mas o caminho já feito chama a atenção para as grandezas e problemas que se vivem entre florestas e rios, apontando linhas de futuro que serão úteis para a Igreja na Amazónia, mas que podem também abrir portas ao futuro noutras terras e com outros povos.

* No ano de 1989, Roberto Carlos já denunciava os descasos com a Amazónia. Tantas ONGs lá, tanto dinheiro investido e nunca fizeram nada por ela

Autor: Tony Neves
Missionário do Espírito Santo.
Coordenador do gabinete de Justiça e Paz da Congregação, em Roma
In www.espiritanos.pt, 17.07.2019
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