O Natal que se avizinha

Natal em_tempo_de_covidNum período de grandes incertezas como aquele que vivemos neste preciso instante, uma das certezas que temos é o Natal que se aproxima a passos largos, e que irá ser certamente um Natal diferente dos que todos conhecemos.

O Natal que simboliza a festa da família, da oportunidade da reconciliação, do calor humano, da partilha e da bondade, num ritual que se repete nas nossas tradições cristãs há cerca de dois mil anos e mesmo anteriormente, já que coincide com o solstício de inverno, vai conhecer em 2020 um sabor e uma vivência diferentes.

Não é que tal não tenha já acontecido anteriormente. Não é inédita na história da humanidade, uma celebração como a que teremos este ano. Se recuarmos na história, existem igualmente memórias de muitos outros natais passados em contexto de grandes dificuldades a nível nacional ou mundial. Seja devido a acontecimentos naturais (uma tempestade, uma erupção vulcânica, por exemplo), ou provocados pelo homem (uma revolução, uma guerra), muitos outros natais foram igualmente passados em diversas latitudes em clima de tristeza, fome, solidão ou luto. Já é assim certamente para muitas famílias, que passam por uma experiência de dor nesta época, sublimada ainda por cima pela época natalícia e que por isso, agudiza a dor sentida. Agora, quando é todo o coletivo que é afetado, neste caso elevado à escala mundial, o significado é muito maior.

O estar em família {que não cooabitem na mesma casa}, ou com amigos, simplesmente não vai ser possível. Abraçar entes queridos, olhar para uma mesa longa, com um conjunto de pessoas irmanadas do mesmo espírito, em são convívio, partilhando alimentos tradicionais neste período, cozinhados em grandes quantidades, partilhando palavras de esperança, de amor e amizade, não vai ser possível. Contar histórias, rir, revivendo na simples convivialidade os valores cristãos da generosidade, do dar e receber, este ano não poderá acontecer da mesma maneira.

E é bem triste que assim seja. Será certamente triste para os mais novos, para quem este costuma ser a época maravilhosa do ano das luzes, das cores e do frenético abrir dos embrulhos das prendas. Será igualmente triste para os mais idosos, porventura no ocaso das suas vidas, que anseiam por estar em família, por beijar e abraçar filhos, netos e outros familiares e amigos. Para estes o Natal é ainda mais importante, até porque pode ser o último.

Contudo, não podemos deixar de pensar que este Natal deverá ser aproveitado como um Natal de aprendizagem, de reflexão e de reinvenção.

Afinal, não é verdade que tudo acontece por alguma imperscrutável razão?

Não, não queremos que este Natal se repita, mas podemos encontrar aqui uma lição, uma aprendizagem que contribua para que o Natal a seguir a este, bem como os que se seguirem depois, voltem a ser os natais do nosso contentamento.

Fernando Viana
14 Nov 2020
In: Diário do Minho
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