Só resta um homem corajoso no mundo, o Papa Francisco?

Papa no_IraqueNum mundo de «cobardes, não restará só um homem corajoso, e esse homem corajoso não é o Papa Francisco?», questionou José Manuel Fernandes, cofundador do jornal digital “Observador”, na crónica diária durante a qual sugeriu a leitura da “Oração dos filhos de Abraão” proferida pelo Papa Francisco no final do encontro inter-religioso que decorreu, sábado, dia 06 de Março, na planície de Ur.

«Estamos a falar de um homem que tem 84 anos, e que em vez de ficar no conforto do Vaticano, foi numa altura destas para uma das zonas mais perigosas do mundo», sublinhou o editor na rubrica “Contra-corrente”.

O jornalista recordou as primeiras palavras de São João Paulo II, após ter sido eleito Papa, em 1978, «não tenhais medo», apelo que «ajudou a mudar o mundo», sobretudo os países do leste europeu, com a queda dos regimes comunistas.

A crónica destacou igualmente a «fabulosa imagem» do Papa Francisco aquando da meditação e oração proferidas a 27 de Março de 2020, «no auge da primeira vaga da pandemia», diante da Praça de São Pedro vazia.

À semelhança desse gesto, também foi um «acto de grande simbolismo» ter estado em Mossul, «entre ruínas» de igrejas: «Quem não viu as imagens, deve ir vê-las», acentuou, antes de questionar: «Quantos líderes se arriscariam a fazer a mesma viagem, quantos é que embarcariam num helicóptero que podia ser abatido por um míssil?».

«Não é preciso dizer mais nada. Só recomendo que leiam a oração toda, que tem partes muito bonitas. Eu por vezes discordo do Papa Francisco, mas gosto muito desta coragem que ele teve e tem nestes momentos»

José Manuel Fernandes lembrou que o Iraque «é um país onde em 2003 viviam um milhão e meio de cristãos; calcula-se que hoje restem 270 mil. Quer dizer que desapareceram mais de um milhão e duzentos mil, fugiram ou foram mortos».

«As pessoas, por vezes, não têm noção desta realidade. Mas quem passar os olhos pelos relatórios publicados pela Ajuda à Igreja que Sofre {AIS} , fica arrepiado com o que se passa com os cristãos, no Iraque e em muitas outras partes do mundo», frisou.

Depois de ter mencionado a existência de «muitos católicos conservadores que têm criticado a aproximação que os últimos Papas têm feito não só às outras correntes do Cristianismo, como ao Judaísmo e ao Islão», o editor declarou que apesar de não ter fé, respeita muito as religiões e dá «a maior importância» ao diálogo entre elas.

«Há muitas pontes que têm de ser atravessadas, sobretudo no Médio Oriente, e é preciso muita coragem para atravessá-las, porque algumas cruzam abismos» cavados pelas «grandes diferenças», e Francisco fez questão de assinalar «o que há de comum no Judaísmo, Cristianismo e Islão», nomeadamente a referência à origem da fé.

A concluir a crónica, José Manuel Fernandes leu o início da "Oração dos filhos de Abraão", e comentou: «Não é preciso dizer mais nada. Só recomendo que leiam a oração toda, que tem partes muito bonitas. Eu por vezes discordo do Papa Francisco, mas gosto muito desta coragem que ele teve e tem nestes momentos».

Rui Jorge Martins
Fonte: Observador
Imagem: Papa Francisco | Mossul, Iraque | 07.03.2021 | © AP Photo/Andrew Medichini
Publicado em 09.03.2021

«Oração dos Filhos de Abraão»

Oração proferida pelo Papa Francisco, em Ur (Caldeia | cidade de Abraão) em 06 de Março de 2021

Deus Todo-Poderoso, nosso Criador, que amais a família humana e tudo o que as vossas mãos fizeram, nós, filhos e filhas de Abraão pertencentes ao Judaísmo, ao Cristianismo e ao Islão, juntamente com os demais crentes e todas as pessoas de boa vontade, agradecemos-vos por nos terdes dado como pai comum na fé Abraão, filho insigne desta nobre e amada terra.

Agradecemos-vos pelo seu exemplo de homem de fé que Vos obedeceu completamente, deixando a sua família, a sua tribo e a sua pátria a fim de ir para uma terra que não conhecia.

Agradecemos-vos também pelo exemplo de coragem, resiliência e força de ânimo, generosidade e hospitalidade que nos deu o nosso pai comum na fé.

Agradecemos-vos particularmente pela sua fé heroica, demonstrada na disponibilidade em sacrificar o próprio filho para obedecer à vossa ordem. Sabemos que era uma prova muito difícil, da qual todavia saiu vitorioso, porque confiou sem reservas em Vós, que sois misericordioso e sempre abris novas possibilidades para recomeçar.

Agradecemos-vos porque, abençoando o nosso pai Abraão, fizestes dele uma bênção para todos os povos.

Pedimos-vos, Deus do nosso pai Abraão e nosso Deus, que nos concedais uma fé forte, operosa no bem, uma fé que abra os nossos corações a Vós e a todos os nossos irmãos e irmãs; e uma esperança irreprimível, capaz de em tudo vislumbrar a fidelidade das vossas promessas.

Fazei de cada um de nós uma testemunha do vosso cuidado amoroso por todos, especialmente os refugiados e os deslocados, as viúvas e os órfãos, os pobres e os doentes.

Abri os nossos corações ao perdão recíproco, tornando-nos instrumentos de reconciliação, construtores duma sociedade mais justa e fraterna.

Acolhei na vossa morada de paz e luz todos os defuntos, de modo particular as vítimas da violência e das guerras.

Assisti as autoridades civis na busca e localização das pessoas sequestradas e na proteção especial das mulheres e crianças.

Ajudai-nos a cuidar da terra, a casa comum que, na vossa bondade e generosidade, destes a todos nós.

Sustentai as nossas mãos na reconstrução deste país e dai-nos a força necessária para ajudar, aqueles que tiveram de deixar as suas casas e terras, a regressar em segurança e com dignidade, e a começar uma vida nova, serena e próspera.

Ámen.

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