Estuques e Estucadores de Carreço

Tectos da_casa_do_masseiroA freguesia de Carreço, situada a norte de Viana do Castelo, constituída por quatro lugares habitados desde épocas remotas, Carreço, Paçô, Troviscoso e Montedor, estende-se por uma vasta área que vai desde os contrafortes do monte de Santa Luzia até ao mar e foi juntamente com a vizinha de Afife, as terras que mais artistas estucadores tiveram que deixaram fama e nível nacional, até aos princípios deste século {XX}. A confirmar esta afirmação, bastará recordar que quando o Rancho Regional das Lavradeiras de Carreço começou a apresentar o seu folclore de forma organizada, há mais de setenta anos [1], metade dos seus dançadores, que eram oito, exerciam o mister de estucador.

Entre os seus praticantes houve verdadeiros e consagrados artistas, no mais amplo sentido da palavra, como adiante veremos, e cujos trabalhos ainda hoje perduram nos tectos de solares, igrejas, teatros e palácios de quase de todos as cidades de Portugal, da Galiza e até do Brasil, com destaque para Lisboa e Sintra, onde a arte dos carrecences deixou marcas com indeléveis. De igual modo, os tectos das casas nobres da nossa cidade de Viana, grande parte se podem destacar os edifícios do Governo Civil, da Câmara Municipal, do Centro Regional de Segurança Social e da Associal Comercial.

Mas em que consiste a arte do estucador? Quais os materiais empregues? Que ferramentas usam? Quando para dar uma resposta a estas perguntas, com vista à elaboração deste trabalho, contactamos o Senhor Armando Fernandes de Miranda, natural de Barroselas, mas a residir na Rua Matias Santos, em Vila de Punhe, que sabíamos ser um dos abencerragens desta arte, ainda no activo, e posto ao corrente da nossa pretensão e de que tratava de um trabalho dedicado à freguesia de Santa Maria de Carreço, abriu-se num franco e largo sorriso, e bem ao seu estilo retorquiu: “É curioso, ando exactamente a restaurar os tectos da residência Paroquial de Carreço!”. Ironia do destino, comentamos, a “terra berço” dos estucadores, já não teve um artista que restaurasse a Residência Paroquial. Depois, em franco diálogo com este artista, que não tem “mãos a medir” para atender a todas as solicitações, não só nas terras do Neiva, mas também, em toda a orla marítima desde Caminha até Esposende, no desenrolar da conversa o nosso interlocutor foi-nos desvendando quais as ferramentas, materiais usados e bem assim como as técnicas e a sua aplicação. Quanto às ferramentas são: a trolha (vulgarmente designada por “tábua da massa”, colheres de trolha, espátulas, ferros de cantos, réguas de tornijo e uma variedade enorme de moldes para a feitura de centros, cantos, pilastras etc.

Quanto ao material, este é composto por uma simples, mas bem doseada – e aqui é que está o segredo da arte – mistura de cal e gesso. A cal tanto pode ser “viva” isto é, em pó como em “pedra”. Neste segundo caso é necessário dissolve-la, ou como vulgarmente se diz, queimá-la com água, já que os pedaços daquele calcário quando em contacto com água reagem, como se entrassem em combustão e desfazem-se, depois é então necessário deixá-la “compor”, o que quer dizer que se deixe arrefecer e repousar algumas horas antes de se poder aplicar. Esta cal, que os estucadores de Carreço aplicavam nas suas obras do concelho de Viana, era adquirida nos fornos da zona do Cais Novo e Cabedelo, em Darque, onde recebia o tratamento necessário, e ali chegava de barco, proveniente dos montes das redondezas da Figueira da Foz, isto na época em que a arte estava mais em evidência, nos meados do século XIX. Por outro lado, é necessário e interessante referir, que provavelmente a cal utilizada pelos estucadores de Carreço, nem sempre tenha sido “queimada” na freguesia de Darque, não estando afastada a hipótese de terem existido fornos de tratamento na própria freguesia de Carreço, uma vez que, os topónimos de “Fonte da Cal” e “Campo da Cal”, ainda hoje, existem na localidade.

Da mistura da cal com o gesso é que resulta o material que tanto prestígio deu aos artistas carrecences – o estuque. A sua aplicação nos tectos e nas paredes é feita em várias fases, sendo a primeira fase chamada de “esboço”, que consiste na aplicação de uma fina camada de massa (mistura de cimento com cal) sobre o enchimento da taipa (que antigamente se usava) ou sobre o tijolo (que hoje se usa), depois de dado o reboco e só depois deste ter “puxado”, como se diz na linguagem da arte, que quer dizer solidificado, é que o artista começa a aplicar e a trabalhar o estuque moldando o desenho ou floral pretendido pelo dono da obra ou muitas vezes fruto da sua criatividade. Aos tectos, chamados “falsos”, que normalmente são os que apresentam mais imperfeições, falhas ou reentrâncias, é necessário que o estucador os componha eliminando-lhes tais imperfeições o que normalmente era feito com uma mistura de sisal e estuque, preparando-o, assim, para receber os desenhos definitivos.  

Os efeitos ornamentais ou configurações que se vêm nos antigos, a até mesmo em alguns dos actuais tectos, podem ser obtidos de duas maneiras, através da criatividade do artista ou através de fundição. A primeira surge da criatividade, da sensibilidade e destreza do artista, porque o trabalho é elaborado no local centímetro a centímetro até aparecer o florão, a jarra ou a figura que espirito inventivo de artista criou e que permanecerá no centro ou no canto da sala, alguns com mais de um século como podemos ver nas fotografias que ilustram este trabalho.

Na segunda, os motivos não tem o mesmo valor artístico, porque lhe faltam o cunho pessoal (criação) do artista executante, uma vez que se baseia na “fundição”, que mais não é do que lançar estuque em moldes previamente concebidos de cópias de outros motivos e deixar o estuque ganhe consistência e depois retirá-lo dos moldes e colocando-os com massa do mesmo material nos locais a que se destinam, escorando-os e depois de terem secado retocar as emendas.

Das várias casas de Carreço que ainda mantêm “preciosidades” destes artistas, uma há que se destaca de todas, a casa do Masseiro, pela beleza dos trabalhos e sobretudo pelo simbolismo de que o figurado está imbuído, cujos trabalhos foram executados há cerca de século e meio e que ainda hoje mantêm a sua beleza original, conforme se pode verificar pelas fotografias.

Propriedade de família com várias gerações de estucadores, o último dos quais pai das actuais proprietárias, duas venerandas senhoras ambas na casa dos noventa anos, que se chamou Domingos e que depois de uma agitada vida pelo país, com destaque para a cidade de Lisboa, onde deixou marcas da sua arte de estucador, regressou à sua terra de origem e à sua ampla casa de lavoura, onde quis deixar a sua “coroa de glória” da arte que serviu e que foi o seu sustentáculo e da sua família. Liberto das suas obrigações profissionais, pôs tal esmero na decoração da sua ampla sala, que ainda quem olhar com atenção fica encantado não só com o simbolismo de figuras decorativas, mas sobretudo com a perfeição da obra, cujo espaço é um autêntico retábulo artístico de mestre naquele género.

No centro da sala vê-se dentro de um circulo em alto relevo com decorações, um arranjo floral dentro do estilo barroco, onde ainda se vêm conchas estilizadas; nos quatro cantos, também dentro de círculos com arranjos envoltos numa arquivolta, as quatro estações do ano: Primavera, Verão, Outono e Inverno, representadas por figuras humanas sentadas em dóceis, nas cores amarelo e branco sobre um fundo cinzento. No espaço intermédio dos ângulos da sala vamos encontrar dentro do mesmo tipo medalhões com as mesmas cores, figuras de aspecto mitológico representando a Guerra, a Música, o Amor e a Saudade. A Guerra, aparece simbolizada por um guerreiro de elmo na cabeça, espada e escudo e tendo a seus pés uma águia, a armadura e o pendão. A Música, é representada por uma criança dedilhando uma harpa, sentada num canapé que ostenta uma cabeça de leão, tendo à sua frente uma partitura aberta, onde se podem ler algumas notas musicais. O Amor é retratado por uma jovem alada com joelhos flectidos, sustentando no colo duas crianças e cujas mãos acariciam os corpos desnudos dos pequenos infantes. A Saudade, também simbolizada por uma jovem alada, segurando por entre as suas asas e pescoço, uma criança que sustenta na mão direita um facho dourado, enquanto que das mãos da jovem se desprende pedúnculos de rosas abertas. Na cornija e noutros locais abrem-se diversos espaços geométricos decorados com motivos florais bem ao gosto do estilo barroco moderno, que impera por todo aquele monumental trabalho de estucador.

Pouco mais nos resta dizer sobre esta arte tradicional de Carreço, dos seus estucadores e dos seus artistas daí naturais, mas estes modestos apontamentos não ficariam completos se não se evidenciasse que esta arte tem profundas afinidades com a escultura e não raras vezes houve artistas que as exerceram paralelamente, e como é do conhecimento geral na localidade o exemplo do artista e estucador João Rocha, que moldou a imagem do Cristo Rei de Almada, para depois ser passada ao bronze. Por outro lado, chegou-nos a informação (não confirmada), de que terá sido um carrecence de apelido Passos, oriundo da Casa da Precina mas que terá sido criado em Lisboa e que ainda muito jovem, mas já conhecedor das técnicas da arte e que terá emigrado para o Brasil, onde se evidenciou como estucador e por isso foi encarregue de moldar a celebre estátua do Cristo Rei, também conhecido pelo nome de Cristo Corcovado, que encime o morro que se destaca à entrada da Baía de Guanabara, que tanto impressiona que chega ao Rio de Janeiro, quer de barco, quer de avião.

Para finalizar, vamos registar os nomes de alguns artistas que viveram até ao princípio deste século (XX) e dos quais tivemos notícias. Como é evidente, começaremos por aqueles que fizeram parte do início das actividades folclóricas em Carreço, uma vez que é desta Associação e da conjugação de esforços dos seus componentes, que se deve a iniciativa deste trabalho, que será apenas o ponto de partida para uma pequena pesquisa mais exaustiva, para a história completa desta arte tradicional de Carreço, que esperamos ver continuada. Para já, podemos encontrar os seguintes nomes: Manuel do Nato, Manuel Ceiro, de alcunha “o Preto”, Alfredo Ramos e Alberto Correia, tendo sido estes dançadores do Rancho. Dos outros, para além do Domingos Masseiro, da casa do Masseiro, já aqui referido, temos ainda, Domingos Pinto Ferreira, da Casa da Churra, João Rocha, também já citado, pertencente à Casa do Coira, Artur Fernandes Masseiro, que para além de exercer a arte, tinha, em Lisboa, uma casa de materiais e de moldes; e ainda Domingos Ferreira da Casa do Cigano, que se fixou no Alentejo, onde faleceu. Todos estes são do lugar de Paçô, mas como é evidente outros houve dispersos pelos lugares da freguesia e por isso dizíamos que se impõe uma pesquisa mais aprofundada, dado que não nos foi possível devido à exiguidade de tempo para concluir estes breves apontamentos sobre a arte de estucador em Carreço.

Não sendo possível hoje revitalizar esta arte que no passado levou tão longe os nomes das freguesia de Afife e Carreço, em virtude das novas técnicas introduzidas na actividade da construção civil, sobretudo porque se criaram novos padrões para habitações, pondo de parte a tradicional “casa minhota”, mudança a que não é alheio o fenómeno da emigração, que estes apontamentos sirvam, pelo menos, para homenagear aqueles que durante séculos labutaram na arte, tanto na sua terra como fora dela, bem assim como dois o três artistas estucadores, que em Carreço ainda continuam a arte, que herdam dos seus ascendentes.

[1] No corrente ano (2021) a comemorar 98 anos de actividade contínua.

In: Publicação “Usos, Costumes e Tradições de Carreço”, editado em 1996 pelo Rancho Regional das Lavradeiras e Carreço, Viana do Castelo e coordenado por Manuel Miranda da Costa Pereira.

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