Mensagem de Ano Novo

D Joo_LavradorO bispo da Diocese de Viana do Castelo dirigiu a sua primeira mensagem de Ano Novo à diocese, pedindo que os católicos se empenhem na construção da paz, rejeitando a violência nas famílias e nas próprias comunidades.

“Há muitos conflitos à nossa volta e perto de nós. Desde a violência doméstica, passando pela exploração de jovens e crianças, acentuada a marginalidade e a exclusão pela crise pandémica, pelos conflitos dentro da família e entre vizinhos, não podemos ignorar quanto devemos fazer para edificar a paz autêntica e verdadeira”, refere D. João Lavrador, num texto enviado hoje à Agência ECCLESIA.

O primeiro dia do novo ano é assinalado, na Igreja Católica, com a celebração do Dia Mundial da Paz, instituído em 1968 pelo Papa Paulo VI (1897-1978).

Para o bispo de Viana do Castelo, existem muitos sinais de que “a paz ainda está muito distante” da cultura e da sociedade autuais.

“Não podemos ignorar a crise dos refugiados que procuram refúgio noutros países e para os quais se nega acolhimento e se erguem muros”, exemplifica D. João Lavrador.

O responsável católico alerta ainda para as “disputas económicas protagonizadas pelas grandes potências mundiais”, que geram “desequilíbrios desastrosos” entre ricos e pobres, agravados pela atual pandemia.

“É na atenção permanente e minuciosa de todos os entraves e ataques à construção da paz autêntica que deve exigir vigilância e atuação enérgica de todos os homens e mulheres na sociedade de hoje e nomeadamente dos discípulos de Jesus Cristo”, apela.

O bispo da Diocese do Alto Minho cita a mensagem do Papa para o próximo dia 1 de janeiro de 2022, intitulada ‘Diálogo entre gerações, educação e trabalho: instrumentos para construir uma paz duradoura’, na qual alerta para o contributo de cada um para a “arquitetura” da paz.

“Ainda em tempo de pandemia a exigir a responsabilidade de todos e a criatividade na procura de soluções, uso o mesmo apelo do Santo Padre”, indica.

D. João Lavrador encoraja os que se dedicam à vida pública, ao bem comum e à promoção da dignidade humana a colocar “todos os seus esforços na edificação da paz”.

“Que não desanimemos no longo e árduo caminho que nos leva à paz e nós cristãos, sabendo que Jesus Cristo é a nossa Paz e que esta se alcança em comunhão com Ele, dediquemos todo o nosso esforço na proclamação, por palavras e gestos, da Boa Noticia da Paz”, acrescenta o bispo de Viana do Castelo.

A mensagem conclui-se com votos de Feliz Ano Novo a todos os diocesanos, presentes no território e na emigração.

Viana do Castelo, 28 dez 2021 (Ecclesia)

MENSAGEM

«Cristo é a nossa Paz» (Ef. 2,14)

Em cada ano que começa, renasce a esperança em cada pessoa e em cada comunidade.

Entre todos os anseios que dominam o coração e a inteligência das pessoas do nosso tempo está a paz.

Na verdade, são tantos os sinais a indicarem-nos que a paz ainda está muito distante da nossa cultura e da nossa sociedade.

Olhando ao longe deparamo-nos com guerras mais abertas ou mais encapotadas. Senão através das armas, estão muito latentes nas ameaças. Mas, sobretudo não podemos ignorar a crise dos refugiados que procuram refúgio noutros países e para os quais se nega acolhimento e se erguem muros.

Acresce ainda as disputas económicas protagonizadas pelas grandes potências mundiais que geram desequilíbrios desastrosos entre ricos e pobres. A crise provocada por esta pandemia pôs mais a nu esta evidência que já vinha de trás e que agora se vai acentuando mais.

Se isto nos parece afastado do nosso alcance, não podemos deixar de reconhecer que há muitos conflitos à nossa volta e perto de nós. Desde a violência doméstica, passando pela exploração de jovens e crianças, acentuada a marginalidade e a exclusão pela crise pandémica, pelos conflitos dentro da família e entre vizinhos, não podemos ignorar quanto devemos fazer para edificar a paz autêntica e verdadeira.

O Concilio Vaticano II, consciente dos esforços desenvolvidos na sociedade actual para promover a unidade e a comunhão entre os povos, afirma que «progressivamente unificada, e por toda a parte mais consciente da própria unidade, não pode levar a cabo a tarefa que lhe incumbe de construir um mundo mais humano para todos os homens, a não ser que todos se orientem com espírito renovado à verdadeira paz» (GS. 77).

Aliás, «a mensagem evangélica, tão em harmonia com os mais altos desejos e aspirações do género humano, brilha assim com novo esplendor nos tempos de hoje, ao proclamar felizes os construtores da paz «porque serão chamados filhos de Deus» (Mt. 5,9)» (GS. 77).

Daí que, reconhecendo a paz como um dom de Deus que nos é oferecido no Seu Filho, que é apelidado de «Príncipe da Paz» mas também é fruto do esforço de todos os homens, o Concilio, interpelando ardentemente os cristãos, exorta-os a que «com a ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os homens no estabelecimento da paz na justiça e no amor e na preparação dos instrumentos da mesma paz» (GS. 77).

Reconhecendo que «o bem comum do género humano é regido, primária e fundamentalmente, pela lei eterna; mas, quanto às suas exigências concretas, está sujeito a constantes mudanças, com o decorrer do tempo, a Igreja desperta-nos para o facto de a paz nunca se alcançar duma vez para sempre, mas, antes deve estar constantemente a ser edificada (cfr. GS.78).

É nesta progressiva e constante edificação da paz que somos chamados a dedicar o nosso esforço. É na atenção permanente e minuciosa de todos os entraves e ataques à construção da paz autêntica que deve exigir vigilância e actuação enérgica de todos os homens e mulheres na sociedade de hoje e nomeadamente dos discípulos de Jesus Cristo.

Para a paz se encaminham muitos outros valores como a verdade, o amor, a justiça, a fraternidade, o bem e o altruísmo. Por isso, afirma o Papa Francisco, na sua Enciclica Fratelli Tutti, num dado passo, que «o percurso para a paz não implica homogeneizar a sociedade, mas permite-nos trabalhar juntos» (nº 228). E, mais adiante sublinha que «nunca está terminada a construção da paz social num país, mas é uma tarefa que não dá tréguas e exige o compromisso de todos» (nº 232).

Verdadeiramente a paz afigura-se-nos como «uma obra que nos pede para não esmorecermos no esforço por construir a unidade da nação e – apesar dos obstáculos, das diferenças e das diversas abordagens sobre o modo como conseguir a convivência pacífica – persistirmos na labuta por favorecer a cultura do encontro que exige que, no centro de toda a ação política, social e económica, se coloque a pessoa humana, a sua sublime dignidade e o respeito pelo bem comum» (nº 232).

Na mensagem para este ano, dedicada à paz, intitulada «Diálogo entre gerações, educação e trabalho: instrumentos para construir uma paz duradoira», o Papa Francisco alerta-nos para o contributo de cada um para a «arquitetura» da paz, para a qual «intervêm as várias instituições da sociedade, e existe um «artesanato» da paz, que nos envolve pessoalmente a cada um de nós (cfr. nº1).

Realmente, «todos podem colaborar para construir um mundo mais pacífico partindo do próprio coração e das relações em família, passando pela sociedade e o meio ambiente, até chegar às relações entre os povos e entre os Estados» (nº 1).

Referindo-se ao diálogo intergeracional, o Papa sublinha que «todo o diálogo sincero, mesmo sem excluir uma justa e positiva dialética, exige sempre uma confiança de base entre os interlocutores» (nº2). Assim, «devemos voltar a recuperar esta confiança recíproca» (nº 2).

Realçando, o papel da instrução e educativo na edificação da paz, o Santo Padre afirma que «constituem os vetores primários dum desenvolvimento humano integral: tornam a pessoa mais livre e responsável, sendo indispensáveis para a defesa e promoção da paz» (nº 3). Aliás, «instrução e educação são os alicerces duma sociedade coesa, civil, capaz de gerar esperança, riqueza e progresso» (nº3).

Já no que diz respeito ao trabalho, o Papa Francisco realça que «o trabalho é um fator indispensável para construir e preservar a paz» (nº 4). E, prossegue afirmando que o trabalho «constitui expressão da pessoa e dos seus dotes, mas também compromisso, esforço, colaboração com outros, porque se trabalha sempre com ou para alguém» (nº 4).

Deste modo e «nesta perspetiva acentuadamente social, o trabalho é o lugar onde aprendemos a dar a nossa contribuição para um mundo mais habitável e belo» (nº 4).

Ainda em tempo de pandemia a exigir a responsabilidade de todos e a criatividade na procura de soluções, uso o mesmo apelo do Santo Padre, ao referir que «aos governantes e a quantos têm responsabilidades políticas e sociais, aos pastores e aos animadores das comunidades eclesiais, bem como a todos os homens e mulheres de boa vontade, faço apelo para caminharmos juntos por estas três estradas: o diálogo entre as gerações, a educação e o trabalho» (nº 4).

Encorajo todos os que se dedicam à vida pública, ao bem comum e à promoção da dignidade humana que coloquem todos os seus esforços na edificação da paz.

Que não desanimemos no longo e árduo caminho que nos leva à paz e nós cristãos, sabendo que Jesus Cristo é a nossa Paz e que esta se alcança em comunhão com Ele, dediquemos todo o nosso esforço na proclamação, por palavras e gestos, da Boa Noticia da Paz.

Apresento a todos os diocesanos, presentes no território e na emigração, os meus votos de Feliz Ano Novo que agora começa repleto das Bênçãos de Deus.

+João Lavrador, Bispo de Viana do Castelo

 

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