Amaro Montes de Oliveira

Amaro Montes_de_OliveiraDiz Margaret Mead: «As transformações sociais só podem operar-se por intermédio das pessoas» Talvez alguns vejam no conceito uma verdade de La Palisse. Todavia, deparam-se-nos a cada passo na Imprensa críticas reveladoras de conceitos diametralmente opostos. Talvez os seus autores tenham razão. No entanto, continuaremos a sustentar, até prova em contrário, que de pouco valerá a qualidade de uma viola – se não tiver cordas. É certo que também de pouco valerão as cordas – se não tivermos viola. Caímos no sofisma do ovo e da galinha? Vamos ver se nos safamos.

Quem também transforma a sociedade é o homem. Quer isto significar que a sociedade não se transforma espontaneamente, exige a actividade do homem. Se este continua de braços cruzados, à espera do maná que há-de cair do céu, a sociedade não progredirá: as pessoas correm o risco de ficar, por assim dizer, imobilizadas pela tradição.

A visita que há pouco fiz à Casa do Povo de Deocriste desencadeou uma série de recordações sobre um filho desta terra – AMARO MONTES DE OLIVEIRA – mais tarde radicado em Carreço onde falecera.

A despeito de ser essencialmente agrícola a moldura circundante e, portanto, propensa ao imobilismo tradicional, este homem simpático e activo jamais conheceu o desânimo e, desde a resina à exportação de algas marinhas, procurou, na medida dos seus recursos, agitar as águas estagnadas do meio. Sempre atento às necessidades do seu tempo, estabeleceu-se {em 1947} ainda com mercearia, padaria e café {hoje Pizzaria Ammaro’s47}. Procurou transformar, movimentar. E se mais não conseguiu não foi por falta de espírito de iniciativa. É que transformar, modificar hábitos enraizados no tempo, não constitui empresa de somemos. O optimismo do AMARO, porém, persistia a todas as obstruções, a todas incompreensões, para que Carreço pudesse figurar entre as terras mais evoluídas do concelho de Viana.

Antigo elemento do Rancho {Regional das Lavradeiras de Carreço} de Carlos Freitas (era um exímio tocador de cavaquinho) nunca recusou a sua colaboração, e não só: pôs a eira da sua casa agrícola ao dispor dos turistas, a fim de poderem apreciar in loco e num quadro de autenticidade, o tipismo das danças e cantares regionais. Havia ali regionalismo puro – coisa que de dia para dia vai cedendo o passo à D. Ganância, embora se enfeite com rendas eufemísticas que não importa referir agora.

Com o desaparecimento do empreendedor e incansável AMARO se foi a alegria da sua eira e a circulação de turistas {transportados em autocarros da AVIC nos anos 60} em Carreço, terra que, sem desprimor para outras, reúne requisitos geográficos, tradicionais e humanos suficientes para constituir um pólo de atracção. E se tudo se vai perdendo na bruma do tempo não é por fatais leis do Destino, é porque vão rareando os Amaros e não surgem novos carolas em sua substituição. «As transformações sociais só podem operar-se por meio das pessoas».

O desaparecimento de AMARO MONTES DE OLIVEIRA deixou, pelo menos no aspecto da actividade regionalista, uma irreparável lacuna. Carreço ficou mais pobre. E - Deus permitia que me engane – não se vislumbram, para já pelo menos, elementos suficientemente abnegados e capazes de reerguer o nome da freguesia ao patamar a que outrora foi guindada pelo bairrismo dos que, não possuindo a têmpera do AMARO, desistiram de lutar contra a incompreensão.

Talvez tenhamos trazido às colunas desde Jornal pessoas de reduzida projecção social. Todavia, não será difícil detectar nas considerações produzidas o valor que se procura evidenciar, ou seja, o valor espiritual dessas pessoas, a sua abnegação, a renúncia dos bens materiais próprios e o propósito evidente de servirem a colectividade, melhorando-a na medida das suas possibilidades económicas, técnicas ou artísticas. Sempre admirámos os altruístas os que põem os interesses dos outros acima dos interesses próprios. Quixotismo? Talvez. A despeito disso, teimamos em não abdicar da fé do homem espiritual e recusamo-nos a ter pelos materialões a mínima consideração, embora não desconheçamos a força nítida do dinheiro sobre as pessoas de defeituosa moral. AMARO MONTES DE OLIVEIRA era um homem espiritualmente rico, digno.

Autor: Manuel Enes Pereira

Transcrito por Avelino Seixas

In: Boletim Paroquial “ A Voz de Carreço” nº 30 | Ano VI – 2ª Série de Dezembro/Janeiro de 1974

NOTA: Amaro Montes de Oliveira, faleceu no dia 19 de Janeiro de 1972 {há 50 anos atrás} dez dias depois {09 de Janeiro} do falecimento de sua esposa Conceição Pimenta Ribeiro. Pessoas muito consideradas pela sua bondade, honestidade e grande espírito de colaboração {Boletim Paroquial “A Voz de Carreço” nº 13 | Ano VI – 2ª Série de Janeiro de 1972.

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