Esta rotunda pátria (ALBERTO GONÇALVES)

Numa época em que a bancarrota nos leva a puxar do patriotismo e a inventariar o que de mais representativo o país produz, é costume citarem-se coisas como o vinho (que às vezes é bom mas não é o melhor), o carácter das pessoas (um conceito difuso e pouco operacional) ou a pasta medicinal Couto (o típico absurdo nostálgico). Nunca vi alguém referir aquilo que realmente nos torna singulares, desde os terminais multibancos, que principalmente servem para o contribuinte realizar os pagamentos ao Estado, à Via Verde, que facilita os pagamentos ao Estado. Ou as rotundas, que são o que o Estado à escala local edifica após os pagamentos.
Embora se fale muito sobre rotundas, diz-se pouco sobre o que as rotundas simbolizam ou custam. No que toca a custos, o jornal i, em trabalho que presumo pioneiro e sei indispensável, publicou o primeiro estudo pormenorizado da matéria (na medida em que 511 palavras constituem um estudo, para cúmulo pormenorizado). Se você queria saber quantas rotundas existem em Portugal, continuará na ignorância, pois o i avisa, logo para início de conversa, que "ninguém sabe exactamente quantas rotundas existem em Portugal": a Estradas de Portugal remeteu o assunto para as autarquias, e as autarquias estavam demasiado ocupadas, talvez a fazer rotundas, para responder.
Apesar dos obstáculos, o i apurou que, por exemplo, um grupo de 22 concelhos beneficia de 422 rotundas. Em 2010, nove concelhos investiram 2 milhões de euros em dez rotundas, o que dá uns módicos 200 mil euros por cada uma. 200 mil euros é também o que um pequenino município do distrito de Lisboa gasta anualmente na conservação das suas rotundas. E é do conhecimento geral que S. João da Madeira, concelho de uma só freguesia e o menor do território nacional em área, possui 120 rotundas.
Para quê? Não será pela segurança rodoviária, já que, de acordo com o i, houve rotundas demolidas precisamente devido aos acidentes que provocavam. Suponho que a questão também não obterá resposta. A rotunda mais célebre do mundo é a da Étoile, em Paris. Mas essa recebe doze ruas e tem em cima o Arco do Triunfo. Nós dispomos de rotundas a meio de uma única estrada que em cima só têm lixo, arbustos melancólicos, fontes luminosas ou "cibernéticas" (?) ou, o que é pior, "arte pública", por norma entulho encomendado a um "escultor" amigo do cacique. Se calhar, trata-se de um critério de status, no sentido em que a rotunda significa para a autarquia o que o brilhante na orelha significa para o jogador da bola ou a tatuagem para o presidiário (ou, hoje em dia, para o jogador da bola).
Certo é que numa altura em que se debate ardentemente se a coordenação dos dinheiros do QREN deve caber ao Álvaro ou ao Vítor, não há quem debata o destino de tais dinheiros ou lembre que considerável parte deles termina em rotundas e em incontáveis desperdícios similares às rotundas, meros símbolos de um país que anda às voltas até ficar tonto.


Quinta-feira, 8 de Março
Os homens que dormem contigo na cama
Mais um ano, mais um Dia Internacional da Mulher. Alguns acham escandaloso que em pleno século XXI ainda haja necessidade de assinalar a data. Eu estranho que em pleno século XXI alguns ainda achem a data neces- sária. E sobretudo que algumas se empenhem tanto na respectiva comemoração.
A menos que a coisa possua virtudes insuspeitas, debater, louvar e sequer considerar o papel da "mulher" genérica é enlatar cada senhora numa categoria que lhe esgota a identidade e, à semelhança de qualquer categoria, a limita. Também é um embaraço para as mulheres que levam as suas vidas sem complexos ou favores e uma condenação das mulheres que não beneficiaram de idêntica sorte. Não imagino que uma criatura pensante goste de se ver totalitariamente definida pela etnia, orientação sexual, simpatia partidária ou níveis de colesterol. Ou pelo género. Não me admiraria que o ruído alusivo à efeméride fosse uma conspiração do macho da espécie para subalternizar a fêmea mediante piropos vazios e bajulação. Entre resmas de banalidades, juro que um "telejornal" exibiu Carlos Mendes a cantarolar Amélia dos olhos ooces a título de homenagem ao feminino. Se o objectivo não era reduzir o feminino a uma anedota, parecia.
E depois há o resto. Só por si, o facto de o Dia Internacional da Mulher ter começado como uma reivindicação sufragista e prosseguido como uma bandeira da propaganda soviética torna-o um bocadinho anacrónico, por um lado, e desagradável, por outro. O facto de o louvor das mulheres que ascendem ao poder tender para uma selectividade ideológica que exalta Pinta.silgo ou a "presidenta" do Brasil e achincalha Manuela Ferreira Leite ou Thatcher torna todo o exercício pouco credível. O facto de muitos dos entusiastas actuais se mostrarem aflitos com a discriminação, real ou imaginária, de uma "mulher" mítica nas sociedades ocidentais enquanto se deixam fascinar por culturas que continuam a tratar mulheres de carne e osso com desprezo e crueldade torna o exercício ligeiramente repugnante.
Na melhor das hipóteses, o Dia Internacional da Mulher legitima o cliché da mulher indefesa e carente de ajuda varonil. Na pior, serve-se das mulheres para alimentar interesses particulares. Vale que uma incauta capaz de cair em tão grosseiro truque é digna dele.

 

In DN 2012-03-11

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