Nós e eles (Inês Teotónio Pereira)

O não gosto, ou o não quero, são conceitos vagos e de uma abrangência infinita para qualquer criança.
O maior problema das crianças (além da escola) é o facto de os adultos de hoje tratarem as crianças como se fossem adultos, como se fossemos todos da mesma idade, como se fossemos todos iguais. Nada mais errado. Nós achamos que as crianças têm um sentido de humor normal, que elas sofrem como a maioria das pessoas crescidas, que elas sabem o conceito de “consequências dos seus actos”, que elas se desiludem, que agradecem convenientemente, ou que se ofendem. Enfim, que são como a maioria das pessoas com quem nós lidamos todos os dias. Que são, vá, gente normal.
Mas não são: as crianças estão mais perto de serem comparáveis a marcianos do que a pessoas: elas não gostam do mesmo que nós, não sabem o mesmo que nós, não querem o mesmo que nós, não pensam como nós e não se relacionam como nós. Têm, vá, uma cultura completamente diferente. Por exemplo, nenhum adulto grita da casa de banho: “Já acabei de fazer cócóó!” Ora, isto, só por si, revela que as crianças são seres diferentes.
Mas muitas vezes nós esquecemo-nos deste fosso, deste mar imenso que nos separa, e acabamos por tratar os nossos filhos de igual para igual concedendo-lhes uma credibilidade, digamos exagerada. Falamos com eles como se eles fossem pessoas que sabem limpar o rabo sozinhos: não sabem, por isso têm, devem, ser tratados como tal.
A verdade é que nós colocamo-nos ao nível deles: se o nosso filho tem medo do escuro, imaginamos o que seria se nós tivéssemos medo do escuro e imediatamente acendemos a luz; se ele diz que não gosta de peixe, imaginamos que alguém nos obrigaria a comer aquilo que não gostamos, e imediatamente excluímos o peixe da ementa doméstica; se o nosso menino diz que o coleguinha é mau, imaginamos a besta do nosso colega de trabalho a fazer-nos a vida num inferno e armamos um pé de vento na escola. Levamos a peito as suas queixas e acolhemos os seus desejos como ordens. Tolos.
Não nos lembramos que as crianças são crianças e que por isso são exageradas, inconsequentes, irresponsáveis, insensíveis, medrosas e com muitas vontades dispersas e até contraditórias. Ora, se nós, adultos, as levarmos a sério, estamos absolutamente tramados – a nossa vida transforma-se num verdadeiro labirinto esquizofrénico.
A verdade é que a única maneira de sobreviver a uma criança é traçar um caminho e tentar que ela siga esse caminho a maioria do tempo e com o mínimo de desvios, dando sempre uma importância relativa àquilo que ela sente, quer ou diz. Até porque nenhuma criança está à espera que a levem a sério: quando uma criança diz que não quer ir para a cama, é apenas um desabafo, nada mais – ela não está à espera que a deixem ficar acordada até de madrugada. O mesmo se passa com as suas opiniões em relação à comida, ou quando grita que não gosta dos irmãos, do tio ou da professora. O não gosto, ou o não quero, são conceitos vagos e de uma abrangência infinita para qualquer criança.
As crianças não sabem bem o que dizem, além de terem pouco vocabulário, não perdem muito tempo a pensar naquilo que vão dizer. Elas dizem o que lhes ocorre sem grandes elaborações. Não pensam duas vezes, e muitas vezes não pensam sequer uma vez. Para pensar, elas contam connosco. Contam com quem tem a função de as educar. Elas são apenas educáveis.

In i-online 30 Jun 2012

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